Novos surtos em São Paulo e no Rio revertem uma década de queda nos casos de hepatite A

Publicado em 13/01/2018 às 10:39h

á uma década, novos casos de Hepatite A vêm diminuindo no Brasil, mas dois surtos recentes nas duas maiores cidades do país reverteram a tendência de queda na incidência da infecção, que pode matar.

Em 2017, somente a cidade de São Paulo contabilizou 694 casos - um terço do registrado em todo o país em 2015. Já o Rio de Janeiro relatou um aumento súbito de Hepatite A no final do ano, a maioria no Vidigal. Foram 119 pessoas infectadas na capital fluminense - no ano anterior, houve apenas dez registros.

Aumento nos casos da doença, que ataca o fígado, vinham sendo observados desde 2016 em diferentes países.

"Ainda em 2016, diversos países começaram a registrar casos de Hepatite A. Começou na Inglaterra, depois foi para Holanda, Escandinávia, França e foi se espalhando", afirma Estevão Portela Nunes, vice-diretor de serviços clínicos do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI), da Fiocruz.

 

O que causou os surtos no Brasil?

 

Apesar de semelhantes, os surtos nas duas maiores cidades do país parecem ter sido causados por fenômenos diferentes, afirmam especialistas.

Em São Paulo, a Secretaria Municipal de Saúde atribuiu o avanço ao contato sexual desprotegido. Apesar de a hepatite A não ser uma infecção sexualmente transmissível, contato com a região perianal ou com material fecal pode gerar contaminação.

Já no Rio, gestores de saúde acreditam que a doença se espalhou por causa do uso de água contaminada com o vírus.

"Com certeza é isso que está fazendo a doença se espalhar tão rapidamente", afirma Cristina Lemos, superintendente de Vigilância em Saúde da Secretaria Municipal de Saúde da capital fluminense. Na segunda-feira, a prefeitura colheu amostras de água no Vidigal para investigar essa hipótese.

Para Nunes, ainda é cedo para dizer se os dois surtos estão ligados. Mas o especialista não descarta a possibilidade de o vírus ter chegado ao Rio por contato sexual e depois acabado na água, fazendo com que a doença se espalhasse rapidamente.

 

"É possível que tenha havido aumento de casos por comportamento sexual, que tenha chegado (ao Rio) por essa via e ali encontrou material propício para se proliferar", afirma.

 

 

Como ocorre a infecção?

 

A contaminação é fecal-oral, o que faz a hepatite A geralmente ser adquirida por água e alimentos em que há a presença do vírus.

Por isso, locais com abastecimento de água irregular, falta de saneamento básico adequado ou com baixas condições de higiene são foco da doença.

No Rio, a concentração de novos casos no Vidigal - que registrou 59 pessoas infectadas em 2017, após seis anos sem qualquer episódio - é atribuída a uma possível contaminação da água, provavelmente pela deficiência de saneamento básico na região.

Nunes explica que um local com essas condições sanitárias pode ficar anos sem registrar a doença. Mas se um agente externo trouxer o vírus, como um turista, o germe encontra ali as condições ideais para proliferar. "É como se jogasse fogo num lugar onde há pólvora."

 

Quais podem ser os impactos à saúde?

 

A infecção, causada pelo vírus VHA, geralmente não causa complicações. No entanto, uma pequena parcela dos pacientes pode desenvolver quadros sérios, como a hepatite fulminante, que pode levar à perda do fígado e à morte.

Em São Paulo, quatro pacientes foram levados à fila de transplante de fígado devido à doença. Dois morreram - algo que não ocorria no Estado desde 2012.

No Rio, ainda não houve complicações, segundo a Secretaria de Saúde.

E além dos danos ao fígado, a falência hepática que pode ser provocada pela hepatite A pode afetar o funcionamento do cérebro.

O fígado é uma glândula responsável, entre outros, pela eliminação de toxinas vindas do intestino, como a amônia. Se estiver lesionado, o órgão pode não conseguir eliminar essas toxinas, que passam direto para a corrente sanguínea e alcançam o cérebro.

Pessoas que desenvolvem o quadro, chamado de chamada de encefalopatia hepática, podem ficar sonolentas, confusas, desorientadas e, em alguns casos, apresentarem alterações no comportamento e na personalidade.

"Pela infecção, pode haver destruição maciça das células do fígado. Assim, o órgão não cumpre sua função de eliminar impurezas do sangue. Se houver acúmulo dessas substâncias (na corrente sanguínea), pode levar à alteração do sistema nervoso central, com redução do nível de consciência, confusão mental e coma", explica Paulo Abrão, professor de infectologia da Universidade Federal de São Paulo e membro da 

Publicidade

⇑ Topo